Raça e História
Leituras

Raça e História | Resenha

Dezembro 12, 2018

4 estrelas

4/5 estrelas

 

Raça e História é um ensaio sociológico sobre raças, culturas, diversidade, evolução, sociedades antigas e modernas, pontos de vista distintos e muito mais, escrito pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss.

Claude Lévi-Strauss
© Edouard Boubat/Gamma-Rapho/Getty Images

De início, a leitura foi bastante difícil, pois a linguagem é um pouco obscura e ambígua, sendo que tinha de voltar constantemente atrás para perceber ao que ele se referia. Esta é, basicamente, a única razão para não dar 5/5 estrelas, pois é preciso muita paciência até apanhar um bom ritmo de leitura. É um livro de poucas páginas mas que leva muito tempo a desbravar, por isso não será a melhor escolha para quem gosta de leituras mais fáceis. De facto, é um livro pesado que dá muito que pensar. É isso que lhe dá tanto valor, pois toca em vários tópicos relevantes na sociedade atual.

Aceitação da diferença

Raça e História traz consigo uma mensagem importante sobre a aceitação da diferença. Nós somos sempre melhores do que os outros, porque não os conhecemos tão bem como se fôssemos, realmente, eles. Não temos empatia suficiente para conseguir ver as coisas sob a perspetiva de outras culturas completamente diferentes da nossa. Mas a verdade é que não somos melhores nem piores, nem mais ou menos evoluídos: simplesmente seguimos linhas de desenvolvimento diferentes, consoante os nossos valores e as nossas circunstâncias.

Raça e História, por Claude Lévi-Strauss

Físico VS Psicológico

A raça afeta o corpo, não a mente; afeta o físico, não o psicológico. A mente humana é única de indivívuo para indivíduo, pois é moldada pelas circunstâncias e pela sociedade em que se insere, não tanto pelo sítio onde nasceu (principalmente se ele nem esteve lá muito tempo) e pelas características com que veio ao mundo. Fisicamente, temos sempre aquilo com que nascemos e o nosso crescimento é ditado logo de início por fatores intrínsecos: pouco mudará no seu decurso natural, sem contar com exceções como as que estão associadas à alimentação. Já aquilo em que acreditamos e que nos define provém de fatores extrínsecos, nomeadamente, geográficos, históricos e sociológicos. É por isso que “existem muito mais culturas humanas do que raças humanas”.

Duas culturas elaboradas por homens pertencentes a uma mesma raça podem diferir tanto ou mais que duas culturas provenientes de grupos racialmente afastados.

 

Diversidade e pontos de vista

Ao contrário do que muitos pensam, a diversidade “existe no seio de cada sociedade, em todos os grupos que a constituem”, e não apenas entre países ou continentes mais afastados. É nesta imensa complexidade que dá gosto viver e aprender mais, mas torna-se mais fácil colocar tudo sob a luz das nossas próprias normas e crenças. Na grande maioria das vezes, aquilo que vemos não passa de uma interpretação que toca somente o superficial. É normal, a mente humana não aguenta estar sempre a pensar sobre tudo, por isso simplificamos constantemente para não ficarmos sobrecarregados. No entanto, acho importante desenvolvermos mais o espírito crítico e pensar sobre aquilo que normalmente não nos apetece, nem que só o façamos de vez em quando.

Desde o nosso nascimento, o ambiente que nos cerca faz penetrar em nós, mediante milhares de diligências conscientes e inconscientes, um sistema complexo de referências consistindo em juízos de valor, motivações, centros de interesse, inclusive a visão reflexiva que a educação nos impõe do devir histórico da nossa civilização sem a qual esta se tornaria impensável, ou apareceria em contradição com as condutas reais. Deslocamo-nos literalmente com este sistema de referências, e as realidades culturais de fora só são observáveis através das deformações por ele impostas, quando ele não nos coloca mesmo na impossibilidade de aperceber delas o que quer que seja.

 

Nas outras culturas há as mesmas coisas (“linguagem, técnicas, arte, conhecimentos de tipo científico, crenças religiosas, organização social, económica e política”) e também há progresso, apenas não no mesmo grau ou de uma maneira que nos seja compreensível, seja por não fazer sentido ou por não ter equivalentes simbólicos que nos permitem criar uma comparação com a nossa sociedade e respetiva mentalidade. Isto porque estamos, constantemente, a partir do pressuposto e a criar relações de comparação que, muitas vezes, se revelam como falácias. O que é importante numa sociedade pode não o ser noutra, pois tudo varia conforme a perspetiva.

Felicidade na igualdade?

Ao invés do que se pensa, não há verdadeira felicidade na igualdade, pelo menos não no seu máximo, pois daí adviriam muitos problemas ainda mais difíceis de resolver do que os já existentes. É como em tudo: não dá para agradar a todos. Só aqueles que batalham arduamente pelas condições que desejam, até mesmo em ambientes mais competitivos, é que conseguem atingir um patamar superior na sociedade e tal é, claramente, justo. A maioria das coisas é perfeitamente alcançável, independentemente das condições com que cada um começa. As possibilidades são infinitas. No entanto, há, claramente casos extremos, como os daqueles que nem sequer possuem as condições básicas para sobreviver, mas não é sobre estes que me debruço. É claro que tudo tem de ser refletido com conta, peso e medida, mas nada refuta que a felicidade na igualdade é uma ilusão facilmente quebrada.

Mas, mesmo que esta contradição seja insolúvel, o dever sagrado da humanidade é conservar os dois extremos igualmente presentes no espírito, nunca perder de vista um em exclusivo proveito do outro; não cair num particularismo cego que tenderia a reservar o privilégio da humanidade a uma raça, a uma cultura ou a uma sociedade; mas também nunca esquecer que nenhuma fração da humanidade dispõe de fórmulas aplicáveis ao conjunto e que uma humanidade confundida num género de vida único é inconcebível, porque seria uma humanidade petrificada.

 

O progresso surge ao juntar diferentes visões do mundo, sobre a maneira como as coisas funcionam ou devem funcionar, e diferentes raciocínios baseados em pressupostos diferentes em cada cultura e em cada sociedade. Ou seja, é a diversidade que preenche lacunas numa relação de colaboração. É por isso que é tão importante prestar atenção a pensamentos e ideias diferentes e aceitá-los como a única maneira de crescer pessoal e globalmente.

Concluindo

Sei que esta resenha foi um pouco diferente, pois partilhei mais sobre o conteúdo da obra e reflexões minhas em vez de fazer uma crítica mais sucinta. No entanto, acho que resultou muito melhor assim, pois são as ideias e pensamentos que fazem dela um excelente veículo de conhecimento e reflexão.

Este é um ótimo livro para quem gosta de refletir sobre a existência humana e desconstruir ideias enraizadas na sociedade em que vivemos hoje em dia. Sim, é uma leitura difícil, e todos os meus amigos e conhecidos que leram este livro demoraram imenso tempo a fazê-lo, mas acreditem que vale mesmo a pena. Valeu a pena todas as vezes (das quais já perdi a conta) que tive de reler um parágrafo a fim de apreender melhor a mensagem.

É claro que, para quem não gosta de debater temas filosóficos relacionados com a sociedade em que vivemos, pode não fazer sentido nenhum pegar sequer nele. Mas recomendo-o vivamente, não só porque adoro este tipo de assuntos, mas também porque retrata algo bem presente neste mundo contemporâneo, ajudando-nos a percebê-lo um pouco melhor e a abrir os nossos horizontes que, apesar de toda a comunicação global, se parecem, muitas vezes, estreitar.

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