Princesas de Nova Iorque
Leituras

Princesas de Nova Iorque, por Anna Godbersen | Resenha

Abril 30, 2019

4 estrelas

Finalmente li uma coleção que me ofereceram sobre a elite nova-iorquina do século XIX, Princesas de Nova Iorque, e devo dizer que superou as minhas expetativas! Digo coleção e não trilogia porque soube há pouco tempo que há um quarto volume, não publicado em Portugal. Fiquei super curiosa, por isso devo lê-lo em inglês em breve.

De início, estava um pouco reticente, até porque não se trata de uma época que me fascine por aí além, mas depressa fui conquistada pela trama dramática. Não achei o mesmo de todos os volumes, mas posso dar uma nota média de 4 estrelas. O meu preferido foi o segundo porque há um desenvolvimento brutal das personagens e torna-se mais viciante, mas todos se leem muito bem.

Sinopse

Gostei bastante do resumo que fizeram para a contracapa do primeiro livro, Rebeldes, por isso desta vez transcrevo o que lá está em vez de criar um novo:

Esta história acompanha um grupo de cinco jovens pertencentes à nata da sociedade nova-iorquina dos finais do século XIX. Numa sociedade onde as aparências contam acima de tudo, estes jovens levam vidas perigosamente escandalosas. Elizabeth e Diana são filhas de uma das mais prestigiadas famílias. Num ambiente sumptuoso, que o romance caracteriza tão impressionantemente através da moda, dos interiores ricamente decorados e da esplendorosa arquitetura da Guilded Age, vivem como verdadeiras princesas. Mas a verdade é que o estatuto social lhes impõe pesados sacrifícios e que em nome das conveniências sociais e familiares serão impiedosamente obrigadas a renunciar até mesmo à sua felicidade pessoal. É o que acontece à primogénita, Elizabeth, cuja vida é alvo de mexeriquices e invejas que inspiram as colunas sociais da imprensa da época. Um romance escrito sob a inspiração de Edith Wharton, em que a idade da inocência é tudo menos inocente.

 

Série Princesas de Nova Iorque

Espelho distante da nossa sociedade

Anna Godbersen fez um excelente recorte da época com as descrições e a crítica de costumes. Faz-nos pensar como seria viver numa sociedade que dá mais importância às aparências acima de tudo o resto e até revoltar perante situações que eram bastante comuns na altura — como não mexer uma palha e aproveitar-se do dinheiro dos pais, vivendo às custas do seu trabalho árduo de vários anos. É verdade: ficamos tão embrenhados na história que nos sentimos indignados como se estivesse realmente a acontecer. A narrativa puxa para a emoção e traz à tona os nossos mais variados sentimentos.

Apesar da obra retratar um século com uma cultura bastante distinta da atual, não deixam de surgir semelhanças que nos fazem repensar a atualidade. É uma boa oportunidade para refletir sobre uma sociedade de aparências, que parece prevalecer sobretudo nas redes sociais.

O bater desesperado do seu coração enchia-lhe os ouvidos de forma insuportável, mas não se podia mexer, nem mostrar desagrado. Percebia pela primeira vez na sua vida a agonia de sentir tamanha inquietação sob uma aparência impecável.

in Rumores, p. 76

 

Escolhas difíceis

Seríamos capazes de viver numa sociedade em que a liberdade era um conceito vago para as mulheres e os casamentos combinados eram a decisão mais sensata? Sacrificaríamos a nossa felicidade e desejos mais profundos por algo que traria mais estabilidade para a nossa família? Tomaríamos decisões com base nos bens monetários e nas aparências, por forma a não descermos na escada social aos trambolhões? Ou renegaríamos todas as comodidades para seguir uma vida diferente e possivelmente mais feliz, mas sem amparos? São todas questões válidas nesta época, o que nos leva a viajar para um novo, mas familiar, paradigma.

Complexidade psicológica

O segundo livro é especialmente rico no que toca ao desenvolvimento das personagens, especialmente quando se veem em situações que nunca tinham sequer imaginado e se apercebem de que as coisas não correm sempre como é suposto. É fácil revermo-nos nos pensamentos e sentimentos que elas revelam, principalmente os mais negativos. Ninguém é um santo, por mais que tenha boas intenções. O que conta não são os pensamentos e desejos de má índole que nos podem assolar, mas sim a maneira como os apreendemos e se temos a capacidade para perceber que não devemos agir em conformidade. Ao mostrar que ninguém é completamente bom nem mau, este livro oferece um bom retrato da complexidade humana.

A cada passo que dava, sentia com mais veemência que a sua vida passaria a ser completamente diferente; todos os pormenores da paisagem lhe pareciam irreais e novos; era como se tivesse passado para um novo estádio da sua existência.

in Paixões Secretas, p. 161

 

Mistérios, escândalos e intrigas

O primeiro livro começa logo com uma morte e os eventos que se lhe antecederam e torna-se excitante tentar perceber o papel de cada personagem na tragédia. Acaba por se tornar um pouco previsível (eu própria adivinhei o final) e tem alguns clichés, mas não perdi a vontade de ler por causa disso, até pelo contrário! Há sempre aquela pontinha de dúvida que queremos ver esclarecida e um desejo de ver as nossas suspeitas realizadas. Foi este o ímpeto que me fez acabar o livro de uma assentada!

Os livros seguintes são ainda mais interessantes e viciantes, talvez por já estarmos dentro da história e o ritmo inicial mais lento ter sido definitivamente ultrapassado. Continuam os comportamentos escandalosos — que as personagens tentam esconder a todo o custo —, as falsidades, as amizades interesseiras, as paixões dramáticas, as traições e os mexericos. Os finais, ao contrário do que acontece no primeiro volume, são completamente inesperados e podem dar-nos cabo dos nervos. Ficam já avisados.

Vai buscar o dicionário!

Várias das expressões e palavras utilizadas fazem desta obra uma excelente tradução que remonta a um tempo definitivamente anterior ao moderno, sem deixar de estabelecer analogias muito pertinentes. Encontrei várias palavras novas para enriquecer o meu vocabulário, o que para alguns pode ser um ponto negativo mas que eu acho extremamente positivo. A linguagem não deixa de ser acessível por causa disso e, para quem não se quer dar ao trabalho de procurar definições, dá para entender quase tudo pelo contexto.

Esta é uma das características mais importantes dos ricos: não sabem o preço das coisas e estão sempre a esquecer-se de que é suposto pagá-las.

in Rumores, p. 160

 

Para rever uma vez mais

Todos os volumes apresentam lapsos na tradução, como má construção frásica e conjugação verbal, falta de preposições, discordância em género, entre outros. Mesmo assim, nos dois primeiros não há muitos erros dignos de referência. São coisas mínimas que mal afetam a leitura no geral — nada que uma revisão mais atenta não resolvesse. No entanto, o terceiro volume apresenta mais distrações e incoerências, como o caso do nome das personagens, em que se troca erroneamente “Carolina” (muitas vezes tratada pelo diminutivo “Lina”) por “Caroline” e “Penelope Hayes” por “Penelope Hackey”.

O princípio, os entremeios e o final

Adoro a forma como começam os primeiros dois volumes, relatando parte do final. Cria uma dinâmica muito interessante entre a história e as expetativas do leitor. Até somos nós que começamos a criar intrigas na nossa cabeça, a imaginar como tudo teria de se passar para chegar àquele momento. Revela um bom controlo da narrativa, com a dose certa de mistério para manter o leitor interessado. Já o prólogo do terceiro volume deixa muito a desejar. Segue a mesma premissa dos anteriores, mas falha na conceção. Em vez de deixar o leitor curioso, deixa-o confuso, pois dispersa-se demais em vez de se focar num único evento, ainda por cima usando como recurso um pardalito que vai voando sobre as várias casas. No me gusta.

Também achei muito pertinente a introdução de pequenos textos introdutórios para cada capítulo, com citações de jornais e livros fictícios, assim como bilhetes e cartas relacionadas com o que iria passar-se em seguida. Junte-se a isto a capacidade de manter as possibilidades em aberto até ao último momento e acabar em grande, com reviravoltas excitantes, e temos uma narrativa muito bem estudada e organizada. Alguns finais podem ter sido de partir o coração e muito gente não gostou nada disso. Eu própria fiquei chocada e triste, mas aceitei os desfechos como uma manobra inteligente por parte da autora.

Portanto, a vida era assim, pensou com um ligeiro sorriso. Vence-nos pela persistência até irmos ao encontro dos seus fins mais loucos e inesperados.

in Rumores, p. 89

 

Conclusão

Vale muito a pena ler esta coleção, especialmente para quem gosta de romances com segredos e intrigas passados em finais do século XIX. São livros que revolvem muito as emoções dos leitores e, para quem não ficou completamente rendida com o primeiro, no final já dava por mim irritada, ou a sofrer de qualquer outra forma, com o que lia. Por vezes até parava para suspirar e levar a mão à testa (mas é claro que continuava sempre a ler logo a seguir). Consigo perceber o porquê de muita gente não gostar dos últimos livros ou ter deixado a leitura a meio por não gostar do rumo que a história tomou. No entanto, acho que é precisamente o facto de não ir ao encontro das nossas expetativas que lhe dá mais valor. Se só gostam dos típicos romances cor-de-rosa que acabam com o “e viveram felizes para sempre”, não vale a pena pegarem nestes.

Uma das coisas que estes livros me ensinaram foi que em cada desvio do caminho esperado há a possibilidade de encontrar uma felicidade inesperada.


Detalhes sobre a coleção:

 

1.º volume:
Rebeldes • The Luxe • Editorial Presença • julho 2009 • 312 páginas • 3,5/5★

 

2.º volume:
RumoresRumors • Editorial Presença • setembro 2009 • 288 páginas • 4,5/5★

 

3.º volume:
Paixões SecretasEnvy • Editorial Presença • agosto 2011 • 280 páginas • 4/5★

 

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