O Mistério da Estrada de Sintra, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão
Leituras

O mistério da Estrada de Sintra | Resenha

Março 18, 2019
4,5 estrelas
4,5/5 estrelas

Mesmo sendo uma obra literária do séc. XIX, O Mistério da Estrada de Sintra consegue transparecer atualidade com a crítica de costumes. Já tinha lido Os Maias e gostei bastante e o mesmo se sucedeu com esta obra, mesmo tratando-se de um género ligeiramente diferente.

Sinopse

O Mistério da Estrada de Sintra é um romance que se destaca de outras obras de Eça por se afastar do realismo. Ele e Ramalho parecem simplesmente divertir-se a criar uma espécie de policial intrigante em forma de folhetim.

Tudo começa numa viagem de Sintra para Lisboa, onde um médico e o seu amigo F. são raptados por um grupo de mascarados. O objetivo do grupo é resolver o mistério da morte de um companheiro, cujo cadáver se encontra num prédio isolado, e contam com a ajuda do doutor para confirmar a causa de morte.

O Mistério da Estrada de Sintra romance

Não perca o próximo episódio, porque nós também não!

Há muitos momentos de suspense entre capítulos, como se se tratasse realmente de cartas enviadas para um periódico com vista a serem publicadas sob a forma de folhetim. O objetivo é manter o leitor interessado e, embora seja um pouco cliché deixar as pessoas “penduradas” no final de cada capítulo, não deixa de ser um bom cliché, sempre com muitas surpresas e poucas pausas tranquilas.

Construção do puzzle personagem a personagem

Trata-se, portanto, de uma narrativa com muita ação contada sob a perspetiva de diferentes personagens que vão enviando cartas para o mesmo periódico. As mais próximas da vítima, contam histórias pessoais de viagens e amores proibidos que, peça a peça, vão ajudando a descobrir o autor do crime e as suas motivações. Essa contextualização pretende servir de argumento apelativo ao sentimento do público, menos acusatório e mais de pena.

Que maior ensino que as lágrimas? A dor é uma verdade eterna, que fica, enquanto as teorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas ideias rectas e precisas saem das incoerências do pranto!

 

Que dramático!

O que não falta é drama, reviravoltas constantes, luta contra as paixões, mudanças agrestes e fatalidades! Esta é uma história bonita, triste e muito emocional que mal nos dá um segundo para respirar, especialmente quando é possível morrer por amor e pecado. É claro que tal é exagerado pelas personagens e tudo não passa de decisões escondidas atrás de um dramatismo típico da época. Assim, nota-se uma crítica subtil e um pensar desenvolto que, mesmo com associação às paixões, não deixam de dar grande valor à narrativa, tornando-a muito mais do que um mero romancezito sem-sal.

Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres pretendem esquivar-se à responsabilidade. Não creio no que se chama teatralmente as fatalidades da paixão. A vontade é tudo; é um tão grande princípio vital como o Sol. Contra ela as fatalidades, as febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.

 

Não é preciso lupa, detetive!

É através de pistas e de um raciocínio dedutivo bem construído que vamos apanhando o fio à meada. No entanto, não é preciso pensar muito, pois a narrativa dá-nos a papinha toda. Acaba por se tornar um pouco óbvio, mas não deixa de nos prender a atenção. É-nos revelado um esquema de pensamento, um caminho a seguir bem definido, mesmo que, por vezes, pouco verosimilmente partilhado com várias personagens. Será que toda a gente pensava assim naquela época? Não me parece.

No entanto, gostei muito de saber o que cada personagem pensava e como chegavam a diferentes resoluções. Eu própria sou bastante explicativa e adoro saber as motivações e os pensamentos por detrás de determinadas convicções e ações. Por isso, achei o método de pensamento interessante e digno de ser usado nos dias de hoje, em que parece ser “tudo dado”. Somos o produto da época e da sociedade em que vivemos, quer queiramos quer não, mas isso não nos impede de querer saber mais do que aquilo que realmente necessitamos.

Arte ou apenas retórica?

A escrita é muito agradável e, por vezes, poética. Não se limita a contar uma história, também encanta com as descrições, com as metáforas e as comparações inteligentes e com a adjetivação invulgar. Alguns podem chamar-lhe “retórica” ou algum tipo de escrita mais “obscura”, mas a mim agrada-me bastante. Dá que pensar e também muito que sentir, tal é a intensidade veiculada pelas palavras criteriosamente escolhidas.

Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.

 

Encher o caderninho das citações

Este foi um daqueles livros que me fez querer copiar imensas citações para o meu caderninho pessoal. Até o prefácio traz consigo tesouros sobre a necessidade de mudança e de sangue novo no mundo da literatura que continua a transformar-se ao longo do tempo, por mais subtil que essa mudança possa parecer atualmente. Assim, termino esta resenha com mais uma citação, aconselhando todos aqueles que gostam de romances do século XIX com drama, mistério, crime e adultério a lerem este livro.

Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistência às correntes da tradição, é indispensável para a revivescência da invenção e do poder criativo, e para a originalidade artística. Ai das literaturas em que não há mocidade!

 

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