Manhã
Leituras

Manhã, por Adília Lopes | Resenha

Agosto 9, 2018

Foi a primeira vez que li um trabalho poético de Adília Lopes e a verdade é que fiquei bastante surpreendida pela positiva! De início pode parecer estranho, ou melhor, fora do vulgar, mas acaba por ser exatamente isso que nos impele a acabar a leitura e ansiar por mais.

Manhã, por Adília Lopes

Manhã faz-nos lembrar um diário no qual Adília nos mostra pedaços convenientemente destacados da sua vida que nos transmitem um pouco daquilo que é e daquilo em que acredita. É através das suas rememorações, trabalhadas com mestria para criar associações inusitadas de ideias, coisas e palavras, que temos acesso ao seu crescimento pessoal e a uma conexão especial leitor-autor.

É incrível como consegue dizer tanto com tão poucas palavras, palavras essas que espicaçam a mente do leitor: ora a levam de volta à infância, ora a fazem repensar situações do presente. As coisas que chamaram o interesse de Adília e que fizeram com que escrevesse sobre elas são invulgares e retratadas numa perspetiva diferente do habitual, mas muito enriquecedora. Trata-se, realmente, de uma mente muito interessante para se explorar.

Todas as pessoas são bonitas. As modas é que são estúpidas.

 

A leitura depende muito da interpretação do leitor, sendo que algumas coisas poderão não fazer sentido. No entanto, à medida que nos vamos embrenhando na obra, torna-se cada vez mais fácil perceber onde a autora quis chegar, ou simplesmente criarmos a nossa própria significação. No final, já conseguia fazer associações transversais entre vários poemas e tornou-se mais evidente o modo como a escrita de Adília se destaca das demais: são pequenos pormenores e expressões, como por exemplo, descrever algo como “absolutamente pop”, e maneiras de associar palavras e sentidos que à partida pareciam dissociáveis.

Sem liberdade não se aprende nada.

 

Também me agradou imenso o humor e a maneira como, ao brincar com as palavras de uma maneira tão irreverente e criativa, foi capaz de transformar cada objeto vulgar e cada espaço do dia-a-dia em algo mágico e sobre o qual vale a pena refletir, quando antes usávamos essas coisas e passávamos por esses sítios sem pensar duas vezes. Adília demonstra que há mais do que uma mera utilidade, que há sempre algo novo para descobrir quando prestamos verdadeiramente atenção.

Este livro dá vontade de procurar todas as coisas de que ela fala, de mergulhar mais profundamente na sua vida, confirmando factos, vendo as mesmas imagens, tocando nos mesmo objetos, mesmo podendo não ser exatamente os mesmos. Um exemplo disso são os livros e outras obras artísticas que refere e que ela logo usa para ir de mão dada com as suas memórias ou simplesmente com aquilo que lhe vem à cabeça. Fico sempre a pensar sobre como é que ela se lembra destas coisas todas. Será que já as tinha escrito antes, como num verdadeiro diário, e depois foi lá buscá-las?

Uma médica psiquiatra disse-me nos anos 80: sempre que uma pessoa faz uma coisa bem feita é punida por isso.

 

Para além disso, também são feitas várias referências ao estado do país com pormenores históricos que nos levam a refletir sobre como era viver nessa altura e de que modo a sociedade mudou. Notei, igualmente, algumas críticas escondidas, o que dá mais pontos à autora pela argúcia.

Gostei muito desta leitura e aconselho até a quem não é muito fã do género poético. Eu própria não costumo ler e fico feliz por ter tido a oportunidade! Às vezes é só isso que basta: dar uma oportunidade.

O que mais me marcou neste livro? Sem dúvida os pequenos pormenores que, à primeira vista, podem não parecer quase nada, mas que valem tudo.

 

Já tinham lido algo da autoria de Adília Lopes? Que outras leituras dela me aconselham? Contem-me tudo nos comentários!

 

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