Leituras

Mailbox, by Nancy Freund | Resenha

Outubro 23, 2018

5 estrelas

Mailbox surpreendeu-me imenso pela positiva! Foi um acaso do destino tê-lo comprado aquando da Short Story Conference, que decorreu este ano em Lisboa. Estava a participar como voluntária e consegui assistir a uma leitura que a autora, Nancy Freund, fez de uma parte deste livro, precisamente! Gostei tanto que acabei por comprar e ainda consegui que ela mo assinasse! Mais tarde, ao lê-lo por completo, mais feliz fiquei, pois senti que compreendia a personagem e que eu própria era compreendida, pois revi-me em tantas coisas que nem consigo contar. Trata-se, definitivamente, de uma das melhores leituras deste ano!

Mailbox book

Sandy Drue é a protagonista desta obra sobre a vida e o seu propósito. Através de uma série de episódios que ela vai escrevendo e guardando religiosamente, surge este livro com muitas histórias e devaneios que ela conta com o desejo de que sirvam como um guia para a vida. Desde curiosidades linguísticas a questões mais profundas e filosóficas, esta jovem rapariga de 13 anos não pára de fervilhar de ideias e tem muito que dizer sobre o mundo e as suas convenções sociais.

I could be nothing and anything and everything.

 

Simplicidades complexas

Este livro ainda não foi traduzido para português, pelo que terão de o ler em inglês. Até acho que é uma excelente oportunidade para quem quer começar a ler mais em inglês e ainda não está num nível muito avançado, pois a linguagem é relativamente simples. Esta é uma das coisas de que gostei bastante, o facto de uma linguagem mais simples conseguir retratar ideias tão complexas. É algo que eu própria tento fazer quando escrevo, para que as minhas ideias cheguem a mais pessoas.

Reflexões com pano para mangas

As ideias, crenças, situações e pensamentos em que Sandy se envolve puxam-nos para reflexões mais complexas que apelam aos sentimentos mais profundos e à moral do ser humano. Por isso mesmo, acho que é um bom livro para ir saboreando aos poucos, tal como eu fiz, embora a escrita de Nancy Freund faça com que não queiramos parar. A maneira como ela pensa sobre as coisas faz-nos aperceber de que há mais naquilo que antes considerávamos simples ou a que não prestávamos tanta atenção. Realmente, é uma excelente leitura para abrir os nossos horizontes.

People think having all different languages in the world makes it hard for people to communicate, but if you think about it, it also gives us something pretty amazing to discover when we realize no matter how different we seem at first, our roots are all growing from the same place.

 

Personagem de carne e osso

A linguagem utilizada adequa-se perfeitamente à jovem Sandy, o que faz com que nos sintamos na pele dela e vivenciemos as mesmas experiências, as mesmas dúvidas e incertezas, os mesmos sentimentos… É criado um equilíbrio entre assuntos próprios do início da adolescência e assuntos mais complexos que normalmente atribuímos à idade adulta. E é exatamente isso que nos faz crer piamente na veracidade desta personagem.

A linha de pensamento também me pareceu muito orgânica e a personagem entra em divagações com mudança de assunto repentinas, tal como acontece na vida real. No entanto, essas pensamentos errantes não quebram o ritmo, até porque acabam por servir o propósito de criar associações, muitas vezes inusitadas, que acabam por contribuir na criação de um espaço mental verídico e harmonioso, em que até os mais ínfimos pormenores se encontram interligados, quer nos apercebamos claramente disso, quer não.

Narrativa que saltita de história em história

A história é contada com um formato episódico, ou seja, a Sandy conta-nos uma história diferente por capítulo e é como se víssemos a sua vida através de recortes da mesma, o que acaba por ser muito mais interessante e desafiante, pois vamos compondo as peças uma à uma e não necessariamente pela ordem em que aparecem. Adorei este tipo de narrativa que, em vez de seguir continuamente do passado para o futuro, vai saltitando de momento em momento. Acho que é o formato que melhor funciona para este livro e Nancy Freund teve perfeita noção disso. Em vez de se demorar em pormenores mais aborrecidos e ficar a encher chouriços, a autora foi logo ao que interessa e isso é de louvar!

Just because we don’t understand something, doesn’t make it not true.

 

Escrita com mestria

Tudo isto é feito com uma escrita muito bem trabalhada que nos faz criar uma ligação forte com a personagem. É incrível a mestria que a autora revela nos jogos de palavras, na associação de conceitos, nas metáforas e comparações inteligentes e nas ideias que emprega de forma simples mas que se prendem à nossa mente e que chegam ao nosso coração! São os momentos eureka, o humor crítico mas subtil, os bons conselhos, o estilo de vida praticado e a moral seguida pela personagem que nos conquistam por completo.

É impossível ver as coisas sobre a perspetiva de Sandy e não querer saber mais! Esta jovem quer muito saber o porquê das coisas e tenta sempre ir até ao fundo da questão, por vezes de maneira pouco habitual mas utilizando sempre exemplos concretos do seu quotidiano. A atenção que a personagem dá a certos pormenores e a maneira como nos faz pensar que tudo está conectado de muito mais maneiras do que imaginávamos é o que torna este livro tão especial e mágico.

Lições de vida

Sandy aborda um pouco de tudo neste livro que, tal como ela diz, “it’s a book about life”, ou seja, um livro sobre a vida e aquilo que realmente importa saber. Chega até a oferecer uma possível resposta para a eterna pergunta filosófica: qual é o sentido da vida? Sandy apresenta várias possibilidades dentro de um mesmo raciocínio e as suas resoluções têm inerente uma lógica muito interessante. Por vezes, chega mesmo a mudar de ideias, mas sempre com bons argumentos a sustentar essa decisão.

No entanto, não sabe nem tenta fazer parecer que sabe tudo, até pelo contrário. Podemos não ter tudo resolvido mas é mesmo assim que a vida deve ser: uma constante procura de sentido e de valor. Entretanto, vamos aprendendo, uma lição de cada vez.

People think integrity is an all-or-nothing proposition, but I think it’s more like a bead on a string. It slides a little, and you just want to be sure when someone notices, it’s in the right place. Everyone does stuff that’s not one-hundred percent perfect all the time. You can still have integrity with just a little bit of sliding. In fact, you probably need to learn to accept yourself and accept the fact that there’s always some sliding if you’re human.

 

Amei ler este livro e apontei mais citações e outros pormenores sobre ele do que qualquer outro! Aconselho vivamente, especialmente para quem gosta de pensar e de ser confrontado com ideias diferentes do habitual.

Book card Mailbox by Nancy Freund

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Para lerem a minha última resenha no blogue sobre o livro Sombras, de Patricia Morais, basta clicarem no título.

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